30.3.08
Eu prefiro musica cabeça
Como todas as formas de arte, a música, especificamente o Rock, deixou há muito de ser regido pelo senso de invenção. O apocalipse começou em meados de 77 e levou o singelo nome de Punk Rock. Foi o retorno às velhas bases, a exaustão do estilo, não havia mais pra onde ir. Depois de alçarmos às estrelas e dimensões paralelas a bordo dos sintetizadores progressivos, a grande tendência, o sinal dos tempos agora limitava-se a pura expressão das angustias juvenis, onde a raiva suplantava e saciava qualquer necessidade de técnica. Era o Punk.
Mas o Punk que nascera anárquico, cometeu a ousadia de se estipular padrões. E como a anarquia lhe era intrínseca, esses padrões não custaram a ser quebrados. Logo a atmosfera punk, encharcada de uma permissividade maior do que qualquer hippie jamais sonhou, começou a avançar sobre outros estilos, e outras épocas. E lá estavam o Clash e os Specials colocando os punks pra dançar reggae; os Stray Cats resgatando o espírito Rocakbilly; o The Jam se apoiando nos Mods dos anos 60, e por fim, a maior das piadas: o sintetizador, o pavoroso sintetizador dos Progressivos, também fora cooptado e assim deu frutos. Era a New Wave.
Aí veio o pós-punk, urgente como o punk inglês, e indiferente como o punk americano. Foi o fim da festa. Os dias de CBGB’s, Blondie e Ramones haviam passado. Foi o alvorecer dos Yuppies, de Reagan, da Guerra Fria e da Aids. Era uma época fria, de poucos sorrisos. Mesmo na pista de dança do New Order, o tom era melancólico, mas ainda inventivo. O próprio New Order se reinventara após deixar de ser o Joy Division. O rock inglês como todo um teve que se reinventar após a sanha dos primeiros punks. Na Inglaterra, os Smiths inventavam o que o REM e o Sonic Youth colocariam nome anos depois: o Rock Alternativo.
E foi assim que acabou um período de criação que começou quando Allein Ginsberg e Jack Kerouac saiam da literatura para abrir o portal onde o Rock se jogou para a nova era, nos anos 60. No início dos anos 90 a melodia havia acabado. O aparente desleixo do Velvet Underground com as peças assobiáveis fora levado ao pé da letra, e a ultima década do século começava com batidas e coreografias hollywoodianas. O rock de verdade, não as palhaçadas onde o Metal patinava, estava derrotado, morto. Daí não lhe restou fazer o caminho de volta, se não havia saída para frente, teria para trás. Enquanto na Inglaterra o pessoal unia o legado dançante da última década com sons da era psicodélica, o Nirvana fazia um mix de Pixies e Sonic Youth que desbancou o Rei do Pop das paradas. Depois veio Oasis com seu rock de macho temperado com açúcar sessentista, e por fim os Strokes deram o ponta-pé ao revival dos anos 80 que só parece recrudescer.
Hoje praticamente não existem mais tendências originais, como foi a onda rave no fim dos anos 90. Quando muito existem bandas originais, que se arriscam sozinhas, e despontam para além do momento e para a história. Muitos medalhões cedem às modinhas, outros permanecem a parte em seus mundos, indiferentes aos rios de dinheiro que correm e que não são nada perenes. É o caso do Radiohead e do Portishead, que não por acaso tem “cabeça” em seus nomes, o que por si só já significa muita coisa.