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9.6.07

De como se fazem os mitos

No início deste mês, o mundo comemorou (pelo menos nos cadernos de cultura), os 40 anos de "Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band", o disco dos Beatles que é tido como um dos marcos da música do século XX. Não irei aqui me alongar sobre o que torna este disco tão especial, basta dizer que a partir dele o Rock deixou de ser visto como apenas uma manifestação juvenil: o Rock também poderia uma fonte de Arte.

Hoje, não só este disco, mas toda a obra dos Beatles, é reverenciada e aclamada em todas as partes do mundo, por todo tipo de gente. Maestro ou analfabeto, sueco ou alagoano, há beatlemaníacos em toda as castas imagináveis. Muito desse respeito à obra dos Beatles se dá por um fator muito simples: eles não tiveram decadência. Antes de afundarem nos próprios clichês, antes de virarem relíquias do passado, antes de virarem um bando de velhinhos tocando para velhinhos, ou pior, tentando soar novos no meio da garotada, os Beatles decidiram colocar um ponto final numa carreira que só conheceu o êxito.

Do ponto de vista artístico, uma decisão desse porte não é algo tão simples quanto parece. É preciso além de um grande bom-senso, uma visão crítica da própria obra, uma consciência clara dos rumos e dos objetivos que ainda podem ser almejados, o que ainda dá para fazer, e finalmente, senso histórico. Às vezes um disco, ou um livro, ou filme ruim, pode arruinar um legado que levou anos pra ser construído, e pode-se ganhar mais não colocando isto em jogo em prol de uma longevidade. É o caso dos Beatles. Sua obra está lá, estática, sem fases ruins, é sempre ascendente. Eles não sujaram a própria imagem, não chegaram a se "queimar". As duas ou três gerações seguintes não os conhecera como artistas claudicantes, vivendo de revivals, sem virilidade, sem pujança. Goste dos discos ou não, ninguém pode dizer "ah, a partir deste aqui eles começaram a degringolar'.

É o que acontece com gente como Roberto Carlos, David Bowie, e tantos outros. Tiveram seu auge (algo que Odair José delimita em sete anos, para todo artista) e depois perderam a relevância. Hoje são mais alvos de descrédito e preconceito do que de qualquer outra coisa. E porquê? Porque as gerações mais jovens, as que conheceram seus trabalhos recentes, viram apenas o "crepúsculo desses deuses", o "descanso dos guerreiros". Não importa se houve momentos criativos lá atrás, o que interessa é que desde então eles se arrastam em carreiras com mínimos lampejos de qualidade, o que só afugenta possíveis espectadores.

Pode ter partido daí a decisão dos Los Hermanos de entrarem em "recesso por tempo indeterminado", nas próprias palavras deles. Segundo a banda, não houve nada negativo que motivasse isso, eles simplesmente pararam para dar uma respirada, para viver um pouco como qualquer ser humano no mundo (coisa que não existe no showbizz). Para alguns fãs, a banda acabou de vez. O certo é que, se eles chegaram à conclusão de que não vão produzir mais nada interessante (juntos), então esta parada tem que se apoiada. Eu não gostaria de que daqui a alguns anos um garoto visse os Los Hermanos forçando a barra num programa de domingo e me perguntasse: "como vocês ouviam isso?". Não ia adiantar explicar que no início daquele século, eles tinham sido a maior banda do Brasil. Contra fatos - visíveis - não haveria argumentos.

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