Anacronismo crônico
Tá todo mundo falando dela, então vou falar também: Amy Winehouse. Seguramente, já é um dos nomes mais badalados de 2007. Todo furor que essa inglesa de 23 anos tem causado não é pelo seu dom pra armar barraco (fleuma inglesa? Forget it...), mas sim por simplesmente cantar como uma bela negona de responsa. Tudo bem que ela não é nenhuma branquela, é morena, mas ainda assim é de se causar espanto.
No seu novo disco, "Back to Black", sua grande influência é o Soul. Cansada da complexidade do Jazz, explorada no seu disco de estréia, Amy se jogou de cabeça no ritmo de Ray Charles pra nos brindar com pouco mais de meia hora de pérolas pop. Pop? Ray Charles? Não, não tem nada errado em juntar essas coisas no mesmo parágrafo. É perfeitamente possível ter boas influências e apelo pop, sem cair no óbvio das paradas. E isso a Amy consegue.
Mas para mim, o grande quê da moça não é nem esse. O fato é que ela bebe da fonte dos grandes artistas do soul dos anos 60 sem necessariamente querer ser um deles. Ela se inspira neles, mas mantém seus pés bem ficados no século 21, o que lhe confere a possibilidade de também se valer do hip-hop e do reggae em seu disco. Ela sabe que mesmo que tentasse, ela jamais representaria o que Aretha Franklin ou as Supremes representaram. É algo que está além do timbre negróide.
Muita gente insiste em não entender isso hoje em dia. Como resposta ao New Metal, tem surgido uma leva de bandas cujos heróis são os ídolos da Jovem Guarda e tudo que é sessentista: Beatles, Mods, etc. Se fizessem como a Amy, tudo bem, se basear em elementos, se influenciar, é algo natural. Mas essa galerinha
quer ser o que já não dá mais, querem soar como se estivessem em 1965. O que eles parecem não se dar conta é que o mundo já está bem diferente. Não adianta colocar terninhos e fazer letras sobre garotas que não é só por aí. Os equipamentos mudaram, as técnicas, o público é outro, as expectativas são outras, as aspirações, as drogas são mais potentes, tudo mudou. Mesmo que desse, não teria como serem compreendidos como uma banda sessentista se nesses 40 anos surgiram inúmeras bandas, de vários estilos e formas de tocar. Bandas que fundaram tradições, serviram de influências pra muita gente ao longo do tempo, e formam uma bagagem coletiva da qual o rock sessentista é só uma parte.
Bom, quem sabe um dia eles entendem o que a Amy sempre soube.
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Eu adorei o disco dela, mas quem pode falar bem mais e melhor sobre ele é o Arthur Dapieve.