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29.12.06

A verdade (?) sobre o Brega

Motivo de debates acalorados e de críticas mordazes, o estilo "Brega" é inegavelmente algo arraigado à cultura e ao imaginário brasileiro, tanto quanto o samba e o forró. Mas na verdade, o que é o Brega? O contrário de "chique"? E o que seria "chique"? A "MPB clássica"? Bom, quando houve o estouro do estilo na década de 70, muita coisa que não tinha nada a ver com a história acabou sendo rotulada como Brega apenas por conter algumas poucas afinidades com o que era de fato. Outra razão disto é o bom e velho preconceito, que empurra tudo o que é diferente lá pro fim da fila. E naquela época, ser "in" era bater na ditadura, agradar o pessoal das universidades, dos partidos e dos cineclubes. Se era do povão alienado, os "antenados" torciam o nariz. Era lixo, era Brega.

Pois bem, para fins didáticos, vamos dividir o cenário dos anos 70 em quatro vertentes básicas. São elas:

1) Neo-jovem-guardistas: Os legítimos bregas. No fim dos anos 60, a Jovem Guarda começou a dar sinais de cansaço. Nisso, uns partiram para outra coisa, como Roberto Carlos, Ronnie Von e Os Incríveis. Mas outros, não. Continuaram fieis ao estilo e a sonoridade, e naturalmente, o êxito dos artistas predecessores inspirou muitos exageros. O que surgiu foi uma espécie de Rococó da Jovem Guarda, onde as temáticas amorosas foram levadas ao paroxismo. Nessa onda de exagerar, quase tudo era tratado em termos trágicos, extremos, o que em muitos casos acabava caindo no cômico. A referência dos compositores e cantores não era mais o Rock internacional da época, mas sim os grandes cantores dos anos 40 e 50, já considerados arcaicos durante os anos 60. Houve uma retomada daquela forma de cantar, mas com uma roupagem de som cunhada pela Jovem Guarda. Exemplos disto são Evaldo Braga, Baltazar e José Ribeiro.

2) Românticos de ocasião: Não tinham nada a ver com a Jovem Guarda. Surgiram incentivados pelo sucesso da nova fase do Roberto Carlos, a "fase adulta", mas sem que quisessem ser ele. Eram cantores que procuravam se expressar à sua maneira, que tinham muita personalidade e buscavam desenvolver um tipo característico de som. Suas letras não tinham nenhum laivo de humor. Tratavam de temas mais complexos, eram bem mais reflexivos, apesar de falarem de amor e relacionamentos. Diferente do pessoal do grupo acima, o modo que eles viam as situações nada tinha de extremo, eram quase sempre permeados por uma melancolia latente, um quê de dramático. Isto tudo demonstra o quanto se levavam a sério, não riam de si próprios, o que não lhes poupou das críticas. É o caso de Fernando Mendes, Márcio Greyck e José Augusto.

3) A velha-guarda ressuscitada: Esses também nunca tiveram nada a ver com Jovem Guarda, nem com Rock. São artistas que já estavam em atividade nos anos 40 e 50, mas que haviam sido abafados pela chegada da Bossa Nova, e depois riscados do mapa pela Jovem Guarda. São cantores cujas referências estão mais no samba, samba-canção, bolero, etc. Como eles eram a inspiração maior dos "neo-jovem-guardistas", que acabaram obtendo sucesso, estes cantores voltaram a ter espaço e puderam figurar lado a lado, confortavelmente, com aqueles novatos. Quem ainda estava vivo, ou meio-morto, pôde voltar às rádios, para ser colocado no mesmo bolo dos demais e ser classificado genericamente como "Brega". Exemplos: Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette.

4) Mamãe, eu quero ser Roberto Carlos: O estabelecimento de Roberto Carlos como "O Rei" acabou inspirando o nascimento de vários clones dele por todo o Brasil. O maior e mais conhecido deles é o Odair José. Chega a ser engraçado o esforço em soar da mesma maneira, as inflexões vocais, os arranjos, tudo. A diferença, o que os joga no limbo do Brega, é que eles escorregam nas letras e nos temas. Enquanto que o Roberto tentava manter a elegância, se segurava, os demais nem sabiam o que eram isso. Falavam de tudo, das maneiras menos elegantes que conseguissem. Outro exemplo de clone do Roberto é o Paulo Sérgio, só que este involuntário. Ele surgiu ainda no fim da Jovem Guarda, e para a sua sorte (ou azar), o seu timbre de voz era muito parecido com o do Rei. Acabou fazendo um relativo sucesso. Conta-se que, forçado pelas comparações, ele fez uma cirurgia para ver se mudava um pouco a voz, mas não conseguiu.

Ainda nos anos setenta, cantores que não estavam em nenhuma dessas categorias eram tachados erroneamente de Bregas. Era gente do Soul, como Cassiano, ou identificados com o samba, com o Luiz Airão, e outros como Tunai e Dalto, que faziam algo dentro do Pop. A partir dos anos 80, o universo do Brega se ampliou devido as fusões com outros estilos, como Calypso, Sertanejo, Lambada, etc. Apareceu todo o tipo de associação entre as vertentes e os ritmos surgidos posteriormente, o que torna quase impraticável qualquer tentativa de classificação. Como quase tudo que se torna popular, muita coisa ruim vem sendo feita, mas há de se reconhecer que muita coisa de qualidade foi produzida através do tempo, coisas que atravessaram décadas e ainda fazem parte da vida de muita gente. Tanto que, se há algo no Brasil que mereça o rótulo de MPB, isto é o Brega.


LUÍS VENCESLAU - 12:29 AM

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2.12.06

O fim da música

Lulu Santos é comumente tachado de polêmico por dar declarações um tanto originais demais. De fato, ele às vezes emenda uns desabafos sem propósito, é verborrágico mesmo, eu nunca vi ninguém daquela geração próximo a ele, fazendo parceria, o que fosse. Eu lembro de que há um tempo atrás eu vi uma entrevista com ele em que ele falava a respeito das funções da música no decurso do tempo e atualmente, e ele não entendia porque se escandalizavam tanto quando ele explicitava isso. Na hora eu nem prestei muita atenção, mas depois eu vi que quanto a isso ele está completamente certo.

Ele dizia que não conseguia ouvir música eletrônica a não ser quando fazia exercício, corria na esteira, etc. Ou seja, na concepção dele, musica eletrônica é mais algo pra preencher um silêncio, aplacar o tédio, marcar um ritmo. Não era uma música para ouvir, para ser saboreada, para provocar uma experiência estética ou passar alguma mensagem. Não que não existam vertentes na música eletrônica que explorem esses lados, como o trip-hop, por exemplo. Mas em sua maioria, a música eletrônica só faz sentido quando ouvida na rave, com uma cerveja na mão e a luz negra nos olhos. Um dj alcança o êxito não quando fica na posteridade ou muda os rumos da música, mas sim quando faz a galera "bombar" na pista, ali, naquele momento.

O fenômeno da "música com determinado fim" não é de hoje, lembremos da "música de elevador" que deu origem ao Lounge. E também a disco-music, a música das discotecas, que surgiu nos anos 70 e era alvo do desprezo de muita gente. Mas este conceito não é restrito à musica internacional, ele engloba também os brasileiríssimos axé, o funk carioca e o chamado "forró de plástico". Os mais puristas torcem o nariz, dizem que nada disso é música, chamam de lixo cultural, que é tudo descartável, etc. Realmente é tudo descartável. Nessas músicas não há grandes pretensões, aspirações artísticas, nem grandes sentimentos envolvidos, ou uma expressão forte. Não são músicas produzidas para serem ouvidas daqui a dez, vinte anos, no som de casa, ou num phone de ouvido. Precisa de uma estrutura, faz parte de todo um contexto de divertimento, uma festa, onde se dança, pula, bebe, fica, namora. É só a isto que ela se propõe: a diversão, aqui e agora. Se você consegue se divertir com esses tipos de música enumeradas, ótimo. Como eu não consigo, continuo com meus Beatles, ou quem sabe o Cartola, aqui no meu walkman.

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